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Carta da Lapa

43ª Romaria da Terra e das Águas Bom Jesus da Lapa

TERRA E ÁGUA DONS DA VIDA NO CAMPO E NA CIDADE”

“Em sua mão está a vida de toda criatura e o fôlego de toda humanidade” (Jó 12,10)

A 43ª Romaria da Terra e das Águas ao Bom Jesus da Lapa aconteceu num momento decisivo para a história humana e nossa relação com a Casa Comum.

Realizada ao longo de 42 anos, com a presença de milhares de romeiros e romeiras vindos dos mais diversos lugares para o Santuário do Bom Jesus da Lapa e Nossa Senhora da Soledade, neste ano ela aconteceu de forma diferente por causa da pandemia do novo coronavírus: este ser invisível que nos impõe medo e uma profunda reflexão sobre os seres humanos e nossa relação com os outros seres vivos que habitam o Planeta Terra. Mesmo que virtualmente, nos conectamos, nos irmanamos e estendemos nossa mensagem a todos os recantos do país através desta carta.

Esta Romaria deixa em nós um marco profundo na busca de autenticidade, renovação e fortalecimento em nossas lutas cotidianas. Constatamos, mais uma vez, que nossa ganância e arrogância estão destruindo a natureza e seus dons. Não temos esse direito! A natureza já está reagindo ao mal que fazemos a ela. Se não mudarmos nossas práticas consumistas, mais graves desastres ambientais e novas e piores doenças virão.

Porém, nossa fé, fundamentada na Palavra de Deus, nos diz que é para a nossa existência e o nosso fôlego, que Jó aponta o Deus da Vida, a nos encorajar: Não tenham medo!

Irmanados, mesmo à distância, cresce em nossos corações um compromisso coletivo e responsável com uma missão que nossa Romaria, uma das mais antigas do Brasil, coloca novamente em nossas mãos: defendam e protejam a terra e a água, que são dons da vida no campo e na cidade!

Como fruto da nossa reflexão, compartilhada na Grande Plenária pelos tradicionais, e plenarinhos temáticos que aconteceram virtualmente, queremos abraçar, com toda energia e esperança, algumas tarefas irrenunciáveis:

– Resistir às ameaças a nossa democracia, incessantemente atacada nos últimos tempos;

– Denunciar os poderes políticos que se aproveitam do grave momento de crise sanitária para precarizar leis, privatizar as águas, legalizar a grilagem de terras, impor projetos danosos (de barragem, mineração, energias eólica, solar e nuclear, desmatamento, captação de água, etc.) que destroem o meio ambiente e jogam as populações empobrecidas na doença, na miséria e na fome;

– Denunciar toda forma de violência, de modo especial contra a juventude negra, mulheres, camponeses e camponesas, quilombolas e indígenas;

– Denunciar a destruição das políticas públicas que garantem o mínimo de dignidade a crianças, adolescentes, jovens, mulheres e idosos;

– Anunciar que é por causa da nossa fé que olhamos para o nosso chão e continuamos lutando por terra, por água, por justiça e por direitos;

– Superar o conformismo e o desânimo e continuar lutando pelos direitos já garantidos na Constituição Federal e que agora são roubados pelos interesses do grande capital e seus asseclas;

– Resistir à propagação de notícias falsas e discursos panfletários, que negam os avanços da ciência e da ética e pregam os racismos, a supremacia branca e masculina, o armamento, a violência, o ódio;

– Reafirmar que, em tempos “normais” e em tempos de pandemia, a defesa e a proteção da vida estão acima dos interesses econômicos de minorias;

– Continuar e aumentar a solidariedade concreta com as pessoas mais necessitadas em quarentena, através da prece, da doação de alimentos, material de higiene, uma mensagem de conforto e ânimo;

– Dialogar com diferentes lideranças religiosas para que, a exemplo do Papa Francisco, líderes indígenas e de outros povos e comunidades tradicionais, ajudem o povo a pensar diferente e lutar para não voltarmos à velha normalidade das injustiças, das riquezas acumuladas em grandes fortunas e de poder nas mãos de poucos;

– Participar da construção de uma sociedade onde as pessoas amem-se e vivam a paz, fruto da justiça, a exemplo das crianças que nos encantam com seus sonhos de um mundo livre de todos os males!

Por fim, conclamamos romeiros, romeiras, de todas as idades, a unirmos nossas forças, nossas experiências de luta e nossa fé, pois juntos somos mais fortes. Só assim, com esperança, construiremos uma sociedade justa e fraterna, prenúncio do Reinado de Deus, do Bom Jesus.

Bom Jesus da Lapa, 04 de julho de 2020.

Romeiros e Romeiras da 43ª Romaria da Terra e das Águas

Enviado por Ir. Maria Rodrigues

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