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Quaresma e Quarentena

Viu, sentiu compaixão e cuidou dele.”

A quaresma nos convida a oferecer a vida como dom e compromisso.

Todo discípulo para seguir Jesus necessita olhar e andar nas trilhas dos passos Dele. Ir ao encontro do outro, das pessoas, na realidade ordinária do dia a dia… na vida concreta.

Nesse caminhar nos passos de Jesus é necessária a compaixão. Ter compaixão é “sofrer junto”; uma qualidade humana que nunca foi fácil viver em profundidade. Da compaixão decorre a solidariedade que é o “socorro mútuo”, o apoio concreto entre os seres humanos marcados pelo sofrimento. O “sofrer junto” e o “socorro mútuo” não se refere somente ao sofrimento físico, mas a todas as possibilidades de Vida numa abertura constante ao amor que rejeita o prisma da competição.

 

Neste tempo de pandemia, que traz à tona os medos, as inseguranças e as angústias das pessoas do mundo inteiro e nos torna todos vulneráveis é tempo de conversão e escutar a voz de Deus que fala ao coração humano mais uma vez…

Uma das certezas é que tudo está interligado como a grande criação Amada por Deus e nos remete aos povos indígenas e as palavras sábias do cacique Seattle de 1856: “De uma coisa sabemos: a Terra não pertence ao homem. É o homem que pertence à Terra. Todas as coisas estão interligadas como o sangue que une uma família; tudo está relacionado entre si. O que fere a Terra fere também os filhos e filhas da Terra. Não foi o homem que teceu a trama da vida: ele é meramente um fio da mesma. Tudo o que fizer à trama, a si mesmo fará”. Vale dizer, há uma íntima conexão entre a Terra e ser humano. Se agredirmos a Terra, nos agredimos também a nós mesmos e vice-versa.

A natureza é, pois, sempre co-criativa, co-participativa, ligada e re-ligada a tudo e a todos e principalmente à Fonte Originária de onde se originam todos os seres. Papa Francisco nesta profunda consciência convocou o encontro de jovens empreendedores em Assis e escreveu: “Enfatizei hoje, mais do que nunca, tudo está intimamente conectado, e a salvaguarda do ambiente não pode ser separada da justiça para com os pobres e da solução dos problemas estruturais da economia mundial.” E ainda afirma: “Caríssimos jovens, sei que vocês são capazes de escutar com o coração os gritos cada vez mais angustiados da Terra e de seus pobres em busca de ajuda e de responsabilidade, ou seja, alguém que responda e não se vire para o outro lado.”

É preciso re-almar a economia…! O mundo está sedento de Vida e Amor!

Os templos físicos em muitos lugares estão fechados para as celebrações por prudência, mas a Igreja continua viva  nos corações humanos que no tempo da quaresma faz da quarentena um espaço fértil de retomada da vida, que sente a sede da bondade e da misericórdia de Deus e de conversão dos corações.

Assim, temos buscado viver esta experiência tão única na Comunidade do Generalato e no início da jornada do atual Conselho Geral.

Rezamos em solidariedade com toda a humanidade o caminho de Jesus. Muitos são os trabalhadores da saúde incansáveis no atendimento às pessoas afetadas. Podemos imaginar se a epidemia afetar populações mais empobrecidas, corpos frágeis e vulneráveis, sem acesso aos hospitais, aos cuidados médicos e entregues a própria sorte… Esta realidade se conecta com todas as realidades da vida machucadas pela desigualdade social, fome, injustiça, indiferença, guerra… Lembramos dos migrantes da Ilha de Lesbos, das vítimas da guerra na Síria, dos milhares de pobres nas ruas do Brasil, nos povos africanos, inclusive na Tanzânia, e tantos outros…

Convido a rezarmos com esta oração enviada por nossas irmãs Franciscanas de Oldenburgo, dos Estados Unidos, neste tempo de conversão e expectativa esperançosa da vivência Pascal:

“Nós que somos meramente incomodados, lembramos de quem a vida está diretamente em jogo. Nós que temos fatores de risco, lembramos dos mais vulneráveis. Nós que temos o luxo de trabalhar a partir de casa, lembramos daqueles que devem escolher entre preservar a sua saúde ou ter a necessária renda. Nós que podemos ter a flexibilidade de cuidar dos nossos filhos quando as escolas fecham, lembramos daqueles que não têm opções. Nós que temos de cancelar as nossas viagens, lembramos daqueles que não têm para onde ir. Nós que estamos a perder o dinheiro de nossas poupanças no tumulto do mercado econômico, lembramos daqueles que não têm dinheiro algum de reserva. Nós que nos instalamos para uma quarentena em casa, lembramos daqueles que não têm casa. Durante este tempo em que não podemos fisicamente abraçar-nos uns aos outros, podemos ainda encontrar maneiras de sermos o abraço amoroso de Deus ao nosso próximo.”

 Texto de Ir. Vera Lúcia Konzen

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